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Entrevista - Ricky De Camargo: Os Novos Caminhos da Guitarra Brasileira

 

Entrevista: Ricky de Camargo e a busca pela luz na guitar music

Com uma trajetória autoral consistente, Ricky de Camargo vem consolidando seu nome na cena instrumental. Após os lançamentos de Origins (2019), Maverick (2021), Relentless (2022) e Beast Mode (2025), o guitarrista inicia uma nova fase marcada por colaborações de peso, expansão conceitual e a estreia de vocais em sua obra.

Nesta conversa, Ricky detalha os bastidores dos lançamentos recentes "A Pilgrimage to the Inner Light" e "The Truth Is Out There", fala sobre a sinergia com grandes nomes da guitarra brasileira e antecipa os planos para seu próximo álbum de estúdio.

01. Trajetória e Evolução na Composição

Você vem construindo uma trajetória autoral desde Origins (2019), passando por Maverick (2021), Relentless (2022) e Beast Mode (2025), sempre mantendo a guitarra como elemento central. Como avalia essa evolução e quais foram as principais transformações na sua maneira de compor e produzir?

Ricky de Camargo: Na questão da composição, continuo seguindo basicamente a mesma estratégia que sempre usei. Normalmente começo procurando linhas de bateria que despertem meu interesse e, a partir delas, começo a escrever e deixo a música seguir o seu caminho.

Procuro sempre pensar primeiro no aspecto musical, e não em criar algo excessivamente técnico. Quero que seja interessante e prazeroso de tocar, mas também agradável para quem está ouvindo — tanto para mim quanto para quem acompanha o meu trabalho.

02. A Estreia dos Vocais

"A Pilgrimage to the Inner Light" apresenta uma novidade importante ao incorporar, pela primeira vez, os vocais de Adriano Blakk. Como surgiu a decisão de ampliar sua linguagem instrumental com uma voz e o que essa mudança acrescentou à composição?

Ricky: Digamos que foi pressão popular (risos). Brincadeiras à parte, sempre achei interessante a ideia de ter voz em algumas das minhas músicas, embora o foco do meu trabalho sempre tenha sido essencialmente instrumental.

Como "A Pilgrimage to the Inner Light" é uma composição mais extensa e com diferentes momentos, senti que essa seria a oportunidade ideal para experimentar um vocalista dentro da minha música. O Adriano acabou acrescentando uma nova dimensão à faixa e, olhando para o resultado, acredito que foi uma escolha muito acertada.

03. O Conceito por Trás de "A Pilgrimage to the Inner Light"

Qual foi a inspiração para essa faixa e o que representa a ideia de uma “peregrinação em direção à luz interior”? Como essa temática influenciou a construção musical da obra?

Ricky: Eu sempre gostei muito de rock e metal progressivo. Acho que faltava uma música com essa proposta no meu catálogo: algo mais longo, denso e que permitisse desenvolver diferentes ideias ao longo da composição.

Em relação à ideia da “peregrinação”, acredito que, à medida que amadurecemos, começamos a rever nossas prioridades, entender melhor o que realmente importa e também nos afastar daquilo que não acrescenta nada de positivo às nossas vidas. Então, essa “luz” representa, de certa forma, o autoconhecimento. Chegar até ela é realmente uma peregrinação, porque exige tempo, amadurecimento e um grande esforço para compreendermos melhor a nós mesmos.

04. Time de Peso e Colaborações

A música reúne Edu Ardanuy, Roberto Barros e Dallton Santos nas guitarras, Adriano Blakk nos vocais e Giovana Teixeira na bateria. Como surgiu essa formação e como as diferentes personalidades musicais contribuíram para o resultado final?

Ricky: A Giovana participou do meu último álbum, Beast Mode, e a recepção ao trabalho dela foi excelente. Por toda a qualidade técnica, além da facilidade que temos para trabalhar juntos e da maneira como ela entende rapidamente o que proponho, não faria sentido começar esse novo projeto sem contar novamente com ela.

O Adriano é um amigo de longa data, nos conhecemos há mais de 15 anos. Quando pensei em quem poderia interpretar a parte vocal, ele foi a primeira pessoa que me veio à cabeça, tanto pelo talento quanto pela identidade única da voz.

Com Edu, Dallton e Roberto, eu já mantinha contato pelas redes sociais. Como queria fazer algo realmente diferente nessa música, resolvi convidá-los e todos aceitaram. Naturalmente, dei total liberdade para que cada um colocasse sua personalidade nas partes que gravaria. São músicos que sabem exatamente o que estão fazendo. Da minha parte, procurei principalmente organizar os momentos em que cada um entraria, para que tudo fizesse sentido dentro da narrativa.

05. Estrutura e Narrativa Progressiva

Com 10 minutos de duração, "A Pilgrimage to the Inner Light" possui espaço para diferentes momentos. Como você estruturou a faixa para que sua extensão contribuísse para a narrativa, em vez de simplesmente prolongar sua duração?

Ricky: Como acontece em praticamente todas as músicas que gravo, geralmente começo procurando uma linha de bateria que me inspire. Vou trabalhando nela, editando e experimentando até sentir que a base está interessante. A partir daí começo a construir as guitarras e os baixos.

Durante esse processo, vou anotando tudo aquilo que acredito que ainda possa melhorar. Nem sempre todas as ideias aparecem no momento da gravação, então gosto de revisitar partes que já estavam praticamente prontas e avaliar se realmente chegaram ao nível que eu esperava, tanto tecnicamente quanto musicalmente.

Apesar da quantidade de guitarristas envolvidos, a proposta nunca foi fazer um “duelo de guitarras”. Os convidados vão aparecendo gradualmente. Eu e o Edu assumimos uma parte maior dos temas e solos, enquanto Dallton e Roberto Barros entram em momentos específicos, principalmente nas partes mais densas. Dessa forma, cada participação tem uma função dentro da composição, em vez de simplesmente termos vários solos colocados um depois do outro.

06. Explorando o Cosmos em "The Truth Is Out There"

"The Truth Is Out There", com participação de Dallton Santos, apresenta uma proposta inspirada no desconhecido e no cosmos. Como nasceu essa música e o que você buscou transmitir através desse diálogo entre as guitarras?

Ricky: Nessa faixa eu quis trabalhar com um tema de que gosto bastante: o espaço, a possibilidade de vida fora do nosso planeta, outras formas de inteligência e todas essas perguntas para as quais ainda não temos respostas definitivas.

Eu já tinha o riff que acabou servindo como ponto de partida e, naquele momento, o Dallton também tinha disponibilidade para participar. Estruturei a composição e, na parte final, pedi que ele entrasse com um solo realmente marcante. Inclusive, queria que fosse algo que me desafiasse e que depois eu mesmo tivesse vontade de aprender a tocar.

07. A Dinâmica de Dividir Composições

O que você procura ao escolher outro guitarrista para dividir uma faixa e como essas colaborações ampliam suas próprias possibilidades criativas?

Ricky: Quando convido um guitarrista de renome — como aconteceu com Alex Martinho em Origins e agora com Edu Ardanuy, Dallton Santos e Roberto Barros —, uma das principais ideias é trazer algo novo para a música e surpreender quem acompanha meu trabalho. Não é todo dia que temos a oportunidade de trabalhar com músicos desse nível.

Além disso, trabalhar com músicos assim naturalmente eleva o nosso próprio nível. Às vezes eu já gravei determinado solo e, quando recebo o material de um dos convidados, percebo que aquilo pode me fazer repensar minha própria parte. Não no sentido de tentar tocar igual a eles, mas de buscar uma unidade maior para a música.

Posso, por exemplo, modificar o final de um solo para que ele se conecte melhor ao início do próximo. É sempre uma questão de complementaridade. Nunca penso nessas participações como uma disputa. O objetivo é fazer com que músicos diferentes contribuam para uma mesma composição e que tudo soe coeso.

08. O Aprendizado vindo de Beast Mode

Beast Mode foi um álbum essencialmente enxuto na produção de base, com você nos cordas, Giovana nas baterias e Giovanni Guazzelli na mix/master. O que você aprendeu durante a produção desse disco que influenciou os trabalhos atuais?

Ricky: Beast Mode foi um grande aprendizado em vários sentidos, principalmente em relação à composição e à maneira de desenvolver novas ideias dentro da música instrumental.

A cada trabalho você acaba evoluindo um pouco na forma de pensar uma composição: como distribuir as partes, quanto tempo dedicar a cada ideia, quando desenvolver um tema e quando seguir adiante. Também passamos a imaginar com mais clareza como aquilo que estamos gravando vai funcionar dentro da música pronta. Muito do que estou fazendo agora vem justamente desse amadurecimento.

09. Técnica a Serviço da Música

Você defende a ideia de escrever músicas agradáveis sem transformar a complexidade técnica em um fim em si mesmo. Como esse princípio guia suas escolhas ao misturar Metal, Fusion e Progressivo com múltiplos músicos?

Ricky: A minha ideia continua sendo exatamente essa. Apesar de existirem momentos tecnicamente complexos nas músicas, eu não componho pensando em torná-las complexas de propósito. É claro que não são músicas triviais de tocar, mas nunca parto do princípio de criar "a música mais difícil possível para mostrar técnica".

O processo é muito mais natural. As frases vão surgindo, eu experimento diferentes possibilidades e avalio se elas funcionam individualmente e, principalmente, dentro do conjunto da composição. Para mim, não adianta uma parte ser tecnicamente impressionante se ela não funcionar musicalmente. A técnica precisa estar a serviço da música, e não o contrário.

10. Próximos Passos e Futuro

"The Truth Is Out There" e "A Pilgrimage to the Inner Light" antecipam um novo ciclo. O que você pode revelar sobre o próximo álbum e quais são os objetivos futuros para o seu projeto solo?

Ricky: Neste momento, estou planejando o álbum para 2027. Normalmente gosto de trabalhar com algo entre sete e oito faixas e tento manter o disco em torno de 30 minutos. Levando em consideração que somente "The Truth Is Out There" e "A Pilgrimage to the Inner Light" já somam quase 15 minutos, acredito que seja perfeitamente possível cumprir essa programação.

Eu costumo perceber que começo a entrar no clima de produzir um novo álbum em duas situações: quando chega uma época mais fria ou quando sinto que já passou tempo demais desde que apresentei algo novo. É quase como se surgisse naturalmente aquela necessidade de voltar a criar.

Agora quero ver o que acontece nestes próximos meses e para onde as novas composições vão me levar. Se tudo caminhar bem, quem sabe não teremos alguma surpresa já no começo de 2027.

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