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Entrevista - Odiado

 

Sub-Discos: Como vocês avaliam a trajetória do ODIADO desde o início da banda até o momento atual, considerando as experiências acumuladas desde o lançamento do EP Cortante, em 2025, e os acontecimentos mais recentes da carreira?

R.: A trajetória da banda nesses dois anos não poderia ter sido mais satisfatória. Para contextualizar, preciso contar como foi o início da nossa caminhada. Na primeira semana de janeiro de 2025, não tínhamos nada, apenas um riff inicial que viria a fazer parte de “Cortante”. Lembro que era nosso segundo ensaio. Basicamente, tínhamos vontade de tocar e nos desafiar musicalmente, e só. Nesse ensaio de reconhecimento, surgiu a oportunidade de abrirmos o show do Sinistra. Decidimos que aceitaríamos o convite, mas precisávamos ter, no mínimo, seis músicas prontas, gravadas e lançadas em um EP até a data do evento. Isso aconteceu na primeira semana de janeiro, e o show seria no início de abril. Na primeira quinzena de março, salvo engano, já estávamos disponibilizando o EP nas plataformas. Temos muito orgulho desse trabalho, tanto pela maneira como foi feito em tão pouco tempo quanto pelo resultado final. Desde então, acumulamos 20 shows, todos com uma resposta muito boa do público, além de muitas amizades e parcerias. Nesse período, participamos de alguns podcasts em Goiânia, concedemos entrevistas e tivemos outras experiências semelhantes. Olhando para trás, sentimos muito orgulho da nossa pequena trajetória. É muito gratificante ver o reconhecimento pelo trabalho.

Sub-Discos: O EP Cortante marcou o primeiro registro de estúdio do ODIADO. Como surgiu a concepção desse trabalho e quais eram as principais ideias que vocês queriam apresentar por meio das seis faixas que compõem o lançamento?

R.: O EP Cortante está diretamente ligado à própria concepção da banda. Somos livres para criar aquilo que queremos. Gostamos de desafios, de brincar com ritmos e compassos, e o mais interessante é que, apesar de todos sermos filhos do Rock/Metal, nossas influências não poderiam ser mais divergentes. Um integrante vem da escola do metal extremo; outro, do stoner rock; há também influências de heavy metal, hard rock e doom metal, além de outras referências, como música brasileira, jazz e country. Tentamos reunir todas essas ideias e encontrar o lugar certo para cada uma delas. Talvez Lamb of God, Pantera e Black Sabbath sejam pontos em comum entre todos nós, mas não posso afirmar isso com certeza.

Sobre as letras, o princípio é buscar reflexões sobre as dores da vida. As coisas que acontecem ao nosso redor e nos deixam indignados são temas que queremos abordar. Não vamos varrê-las para debaixo do tapete: queremos relembrar, mostrar, alertar e, em alguns casos, aceitar a inevitabilidade do sofrimento. Acho que existe uma relação muito forte com o poema “Ilusões da Vida”, de Francisco Otaviano.

Sub-Discos: O processo de composição de Cortante aconteceu a partir de uma proposta já definida para a identidade do ODIADO ou o direcionamento musical foi sendo construído naturalmente durante a criação das músicas? Quais foram as principais referências que influenciaram o resultado?

R.: Durante a composição do EP Cortante, a única proposta era fazer aquilo que não podíamos realizar em outros projetos ou bandas. Se determinado trecho não estivesse em compasso 4/4, não havia problema. Se um acorde com sétima maior ou quinta diminuta não funcionasse com distorção, também não havia problema. Se determinada passagem tivesse uma pegada mais jazzística e imaginássemos que o público não fosse gostar, isso tampouco seria um impedimento. A ideia era colocar as propostas na mesa e descobrir o que funcionava. Claro que tentamos manter o bom senso e descartamos muitas coisas até chegar ao resultado final.

É interessante perceber como as músicas são construídas a partir da junção de ideias. Todas elas contêm contribuições de todos os integrantes; não há nenhuma faixa criada por uma única pessoa. Compor dessa maneira é uma aula de humildade e de como ceder. Acho que todos aprendemos muito durante esse processo. Aprendemos a abrir mão de nossas próprias ideias para incorporar as de outra pessoa. É isso que torna nossas discussões homéricas e nosso amor pela banda genuíno.

No fim, é possível reconhecer influências de groove metal, heavy metal e nu metal, mas nada disso foi planejado. O resultado é uma síntese daquilo que estava em nossas mentes.

Sub-Discos: Escolham uma música de Cortante e comentem especificamente o processo de criação dessa faixa. O que motivou sua composição, qual é o significado de sua letra e por que ela ocupa um lugar especial dentro do EP?

R.: “Violência Repentina” nasceu a partir de um caso real de violência doméstica que aconteceu em uma cidade do Entorno. Quando tomamos conhecimento da história, sentimos que não seria suficiente falar apenas sobre o crime em si. Queríamos retratar o que existe por trás de uma família que vai sendo destruída aos poucos, muitas vezes longe dos olhos de quem está do lado de fora.

A música foi escrita a partir da perspectiva de uma casa onde o homem, por trás de uma aparência de “bom moço” e de uma imagem construída dentro da igreja, escondia uma realidade completamente diferente. Era um homem violento, um pai ausente e um marido truculento. Depois de anos sem consumir álcool, voltou para casa embriagado após uma série de conflitos, e aquela noite terminou de maneira trágica, com a morte da própria esposa.

O que mais nos impactou nessa história foi justamente esse contraste entre a aparência de uma família e aquilo que realmente acontece dentro dela. Durante as reuniões da igreja, ele podia ser visto como um homem correto, mas, dentro de casa, existiam medo, sofrimento e violência.

Por isso, a letra fala de uma casa que se transforma em campo de batalha. Os móveis quebrados, as crianças chorando, as paredes que testemunham tudo e a esperança sendo sufocada são imagens que representam uma família inteira sendo destruída enquanto, para quem está de fora, talvez tudo pareça normal.

“Violência Repentina” também carrega uma reflexão que consideramos muito importante: toda família tem problemas, conflitos e dificuldades. O problema começa quando um homem não compreende a própria força e transforma sua capacidade física, sua influência emocional e sua posição dentro da família em instrumentos de medo e violência.

A música não foi escrita para justificar ou romantizar esse tipo de comportamento. Pelo contrário: é uma denúncia e, principalmente, uma tentativa de conscientização. Muitas vezes, a violência que parece “repentina” é, na verdade, o resultado de anos de pequenas agressões, silêncios, ameaças e sofrimentos que ninguém viu ou que ninguém quis enxergar.

Dentro de Cortante, essa faixa ocupa um lugar especial justamente por isso. Ela mostra que a violência que abordamos não está apenas nas ruas, nas guerras ou nos grandes acontecimentos. Também pode existir atrás da porta de uma casa, dentro de uma família e ao lado de pessoas de quem aparentemente ninguém suspeitaria.

“Violência Repentina” trata do momento em que o lar deixa de ser um lugar de proteção e se transforma no ambiente mais perigoso para quem deveria estar seguro.

Sub-Discos: Entre o lançamento de Cortante e a chegada de “Amostra Grátis”, o ODIADO passou a apresentar novas composições e a ampliar sua atuação nos palcos. O que mudou na maneira de compor, tocar e pensar a banda durante esse período?

R.: Depois de Cortante, “Amostra Grátis” foi nossa primeira composição, e, nas duas ocasiões, trabalhamos sem muito tempo disponível.

Depois de “Amostra Grátis”, finalmente experimentamos compor sem prazos. A banda está trabalhando em seu primeiro álbum, com músicas inéditas.

Sinto que o EP representou um ciclo que se fechou. De alguma forma, aprendemos com ele a abrir mão de ideias e aceitar alterações nas composições. Nosso método de criação continua basicamente o mesmo, mas agora conseguimos resolver os embates criativos com mais facilidade.

Sub-Discos: Em 2026, o ODIADO lançou “Amostra Grátis”, registro ao vivo realizado durante a apresentação da banda no Goiânia Noise Festival de 2025 e posteriormente incluído na coletânea Estúdio Noise 2025, do selo Monstro Discos. O que levou vocês a escolherem justamente essa apresentação e essa música para representar o momento ao vivo da banda?

R.: Aquela apresentação foi uma conquista. Participar de um evento da Monstro Discos e apresentar uma música inédita foi algo que, posso dizer, me tirou de um “buraco sem fundo”.

Contextualizando, naquela época a banda estava parada. Eu, sem medo algum de admitir, estava passando por um momento muito difícil de depressão. Foram dias sombrios, e a banda estava em pausa enquanto eu procurava motivos e caminhos para me reerguer e continuar a caminhada. Foram dias ruins.

Então veio a notícia: “Fomos chamados para fazer o Estúdio Noise”. Precisávamos apresentar uma música inédita, que nunca tivesse sido gravada, e adivinhem: não tínhamos essa música. Não tínhamos nada. Lembro que fizemos um ensaio na quinta-feira para participar do evento no sábado.

Entramos no estúdio, olhamos uns para os outros e nada aconteceu. Nenhuma ideia, não estávamos tocando bem, a técnica não estava em dia e as ideias pareciam estar escondidas. Então, Rodrigo Zed pegou a guitarra e apresentou um riff. Aquele foi o ponto de partida. Foram cerca de quatro horas de ensaio até chegarmos a uma composição. Passei todo o tempo livre da sexta-feira e do sábado repetindo aquela música para gravá-la.

Depois da gravação, ao final do evento, olhamos uns para os outros e dissemos: “Ensaio semana que vem”. Aquilo foi a alavanca que me ajudou a sair da lama. Sou grato à Monstro Discos e aos meus companheiros de banda, que não me abandonaram.

Sub-Discos: “Amostra Grátis” também permite observar o ODIADO em uma situação diferente daquela registrada em estúdio. Quais características da banda vocês acreditam que ficam mais evidentes nessa versão ao vivo e como avaliam a resposta do público durante a apresentação?

R.: Fizemos o melhor possível naquele dia. Eu não estava bem e queria ter a oportunidade de fazer tudo novamente, desta vez melhor. Ainda assim, a resposta do público foi muito positiva, e a mixagem ficou fantástica. Atualmente, quando tocamos essa música, ela se torna um dos pontos altos do show. É uma faixa rápida, agressiva e visceral. No fim, acho que representa muito bem tudo o que vivemos naquele momento.

Sub-Discos: A trajetória do ODIADO está diretamente ligada à cena de Goiânia, um dos importantes centros da música pesada no Brasil. Como vocês enxergam atualmente o cenário underground goianiense e qual é a relação da banda com os demais grupos, produtores, espaços e público da região?

R.: Sobreviventes: essa é a palavra. É incrível como um estilo tão estereotipado e marginalizado ainda produz tantas bandas e artistas. O espaço para eventos é pequeno, o apoio às bandas praticamente não existe e tudo é extremamente precário na maioria das vezes.

Tudo bem estar no underground; essa foi a nossa escolha. O problema é que estamos abaixo do underground. Mesmo assim, apesar de todas as dificuldades, Goiânia continua sendo um celeiro de bandas e conta com um público fenomenal, que comparece e apoia a cena. Tenho muito orgulho de pertencer a esse meio, que continua lutando mesmo com tudo jogando contra.

Já tocamos em lava-jatos com estrutura de ensaio e em home studios, ao lado de bandas que mereciam estar em grandes palcos e eventos. Mesmo nesses espaços improvisados, o público retribuiu com uma energia tão positiva que a sensação era a de estarmos tocando no Rock in Rio.

Nós, integrantes das bandas, somos também produtores e organizadores, além de consumidores e apoiadores da cena. É um cenário com o “espírito forte em um corpo frágil”. Existem tantas bandas amigas, outras nem tanto, mas todas estão sempre correndo atrás de fortalecer o Rock/Metal. Posso dizer: muito obrigado a todos que deram à ODIADO a oportunidade de tocar em seus eventos e a todos que aceitaram tocar nos nossos.

Sub-Discos: Depois de Cortante e “Amostra Grátis”, quais são os próximos passos do ODIADO? A banda já trabalha em novas músicas, em um possível próximo lançamento de estúdio ou em outros registros que possam dar continuidade ao caminho iniciado pelo EP?

R.: Estamos produzindo, compondo e ensaiando, e nosso primeiro álbum vem aí. Ainda não tenho muito a dizer, pois o trabalho está em fase embrionária. Temos cinco ou seis músicas “prontas”, por assim dizer, em estágio de pré-produção. Até chegarmos ao resultado final, muita coisa pode mudar nessas composições.

Sub-Discos: Para finalizar, olhando para tudo o que o ODIADO construiu desde Cortante até o momento atual, que mensagem vocês gostariam de deixar para quem acompanha a banda e para aqueles que estão conhecendo o trabalho agora? O que podemos esperar dos próximos capítulos dessa trajetória?

R.: Nós amamos o que fazemos. Amamos a energia dos shows, o convívio entre os integrantes da banda, as amizades e o companheirismo com outros grupos.

Em 2027, teremos novidades: álbum, músicas novas e shows. Vamos continuar procurando entregar o nosso melhor. Apesar de adorarmos guitarras pesadas e distorcidas, bumbo duplo e vocais agressivos, a ODIADO é muito mais do que isso. Também é sobre amizade, companheirismo, ajuda, respeito e aprendizado. Esperamos continuar levando tudo isso aos palcos em 2027.

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