Como o RURAL ROADS avalia a trajetória construída desde o início da banda até o momento atual, e quais foram as principais mudanças percebidas na identidade musical e artística do grupo ao longo desses anos?
RURAL ROADS: De forma resumida, avaliamos que trilhamos um longo caminho, com algumas vitórias importantes em cada etapa. A banda começou em 2009, inicialmente como um grupo de covers de Hard Rock e Metal em geral, com a ideia de curtir, tocar em pequenos festivais e ganhar experiência.
A primeira grande mudança aconteceu a partir de 2013, com a entrada do Gian e, posteriormente, do Will. Foi quando passamos a focar de fato nas composições autorais. Até então, tínhamos apenas duas músicas próprias e, no final de 2014, já tínhamos uma demo pronta.
Depois veio outra etapa importante, quando entramos em estúdio para gravar nosso primeiro álbum. Tivemos uma verdadeira aula de gravação e arranjos com o produtor Sebastian Carsin. Foi um trabalho em que colocamos toda a nossa criatividade, ainda sem muitas metas ou limitações, e que representou uma das maiores evoluções musicais da banda.
Agora, com o segundo álbum, percebemos um amadurecimento de elementos que já estavam presentes no primeiro trabalho. O retorno do Papão e a entrada do Caramês também acrescentaram características pessoais que se somaram à estrutura que já vínhamos construindo.
“Rust” marca uma nova etapa para o RURAL ROADS. Como surgiu a ideia para esse single e o que motivou a banda a trabalhar especificamente essa composição neste momento da carreira?
RURAL ROADS: “Rust” foi um dos primeiros novos riffs que começaram a surgir durante a pandemia, em 2021. O Gian tem o hábito de ouvir os riffs que vamos colocando em uma pasta compartilhada e, a partir deles, desenvolver novas ideias. Foi justamente o que aconteceu com “Rust”, que surgiu a partir de um riff que eu, Formiga, havia colocado na pasta.
O próprio nome da música também acabou sendo bastante sugestivo para aquele momento. Estávamos passando por uma fase em que não havia shows, ensaios e toda aquela movimentação que fazia parte da rotina da banda. De certa forma, a música acabou representando esse período de pausa e estagnação.
A música “Rust” apresenta uma temática bastante particular. Qual é a mensagem central da letra e quais experiências, reflexões ou situações serviram de inspiração para a composição?
RURAL ROADS: A música e a letra foram compostas durante a pandemia, quando tivemos que ficar parados, “enferrujando”. Isso, claro, foi um fato na vida de muitas pessoas nessa época, não apenas de músicos. Essa reflexão sobre estagnação é algo que ainda faz bastante sentido em uma sociedade na qual a inteligência artificial cria e faz arte, enquanto o ser humano fica relegado à burocracia, sem poder crescer.
Falando exclusivamente sobre os aspectos musicais de “Rust”, como a banda trabalhou os riffs, os arranjos, a dinâmica e a sonoridade da faixa para chegar ao resultado apresentado na gravação?
RURAL ROADS: A partir do riff inicial, fomos desenvolvendo a música de forma bastante coletiva. Aos poucos, em 2023, fomos nos reunindo em casa para trabalhar as composições, inicialmente apenas no formato de guitarra e voz, com o Gian, o Will e eu.
Com o retorno do Papão, começamos a fazer os ensaios em casa com bateria eletrônica, ajustando os arranjos coletivamente durante os encontros. Não foram necessárias muitas reuniões para que “Rust” ficasse pronta estruturalmente.
Depois disso, fizemos uma pré-produção para trabalhar elementos adicionais, como solos, licks e vocais de apoio. O refinamento final acontece durante a gravação, quando trabalhamos as melodias definitivas e as texturas da música.
Como foi o processo de produção e gravação de “Rust”? Houve alguma preocupação específica em preservar determinadas características do RURAL ROADS ou a intenção foi explorar novas possibilidades dentro da identidade da banda?
RURAL ROADS: Nossa produção e gravação não seguem limites muito rígidos. Acompanhamos todas as etapas junto com o nosso produtor, Sebastian, e fazemos mudanças conforme percebemos que elas podem deixar a música mais natural.
Raramente partimos de uma mudança com um objetivo muito específico ou de uma fórmula preestabelecida. O processo acontece de forma bastante natural, desde a composição até a gravação, e vamos tomando as decisões conforme a música se desenvolve.
O RURAL ROADS possui uma trajetória ligada ao cenário autoral e independente. Quais foram os principais desafios enfrentados pela banda para desenvolver seu trabalho e conquistar espaço dentro da cena brasileira?
RURAL ROADS: Ainda enfrentamos uma certa resistência ao novo. As casas de shows, pubs e bares, em sua grande maioria, precisam pensar em agradar ao público, que muitas vezes está acostumado com aquilo que já fez sucesso e traz uma energia nostálgica. Particularmente, não julgo nem os donos das casas nem o público por isso.
Para nós, essa acaba sendo uma das principais dificuldades, pois os espaços disponíveis para apresentar música autoral, principalmente de forma independente, são mais limitados. No nosso caso, somos nós mesmos que fazemos os contatos e buscamos essas oportunidades.
Também existe uma diferença de tempo em relação às bandas que já possuem uma estrutura maior. Todos nós temos nossas profissões e uma rotina apertada, então precisamos conciliar a banda com o trabalho e a vida pessoal. Isso faz com que o processo de composição, ensaio e gravação naturalmente leve mais tempo.
Enquanto uma banda com uma estrutura maior consegue concentrar mais tempo e recursos na produção de um álbum, para nós pode levar cerca de um ano entre o refinamento das músicas e a gravação, além de mais alguns meses dedicados a toda a parte burocrática e ao planejamento do lançamento. Mesmo com essas dificuldades, seguimos construindo nosso trabalho de forma independente e buscando nosso espaço.
A participação do RURAL ROADS em eventos como o São Léo Metal Fest XXI representa uma oportunidade de aproximação com diferentes públicos e artistas. Como vocês enxergam a importância dos shows e da convivência com outras bandas para o crescimento do grupo?
RURAL ROADS: O que nos move como músicos é o ao vivo. Subir no palco, sentir a energia e a adrenalina, apresentar nossas composições e buscar sempre evoluir como músicos é o que nos mantém motivados e atentos.
Ter outras bandas ao nosso lado também nos ensina muitas coisas e nos faz seguir em frente, principalmente na questão técnica. Além disso, existe toda a parte social: a convivência aproxima músicos, cria amizades e também abre portas e novos contatos dentro da cena.
Existe alguma música do repertório do RURAL ROADS, além de “Rust”, que vocês consideram fundamental para compreender a identidade construída pela banda até aqui? O que essa composição representa para vocês?
RURAL ROADS: Esse novo álbum, por ser mais curto, com seis músicas, acabou ficando bastante coeso. Por isso, é difícil escolher apenas uma composição que represente melhor essa fase, porque, ao mesmo tempo em que exploramos novos elementos do nosso som, também amadurecemos características que já estavam presentes nos trabalhos anteriores.
Temos músicas mais modernas e pesadas, como “Thunderstorm”, e outras de assimilação mais fácil, como “The Fortress”. Achamos que essa diversidade, mantendo uma identidade em comum, representa bem o momento atual do RURAL ROADS.
Olhando para o momento atual da cena pesada brasileira, como o RURAL ROADS percebe o espaço destinado às bandas autorais e quais mudanças vocês consideram necessárias para fortalecer esse circuito, especialmente fora dos grandes centros?
RURAL ROADS: A verdade é que os espaços para bandas autorais diminuíram bastante nos últimos anos, embora tenhamos percebido um leve crescimento de oportunidades mais recentemente. Temos notado, por exemplo, oportunidades em editais de festivais voltados a bandas novas, que acreditamos ser um caminho interessante a ser explorado.
Também acreditamos que seria importante o surgimento de mais produtores ligados à cena underground, algo que era mais comum há cerca de 15 anos, além de um maior espaço para bandas autorais nas casas que tradicionalmente trabalham com covers.
Outra questão é aprender a lidar cada vez melhor com a internet. Apesar de não ser mais uma novidade, ela continua sendo uma ferramenta importante para alcançar o público, e seus métodos e possibilidades estão sempre mudando. É um processo de aprendizado constante para as bandas.
Depois do lançamento de “Rust”, quais são os próximos planos do RURAL ROADS? A banda pretende trabalhar em novos singles, um álbum ou EP, apresentações ao vivo, videoclipes ou outros projetos que possam ser antecipados aos leitores?
RURAL ROADS: Bem, ainda temos o álbum para lançar em outubro de 2026, além do show de lançamento e de algumas outras apresentações previstas para o restante do ano.
Em 2027, a ideia é explorar os elementos desse álbum por meio de shows ao vivo, videoclipes e outros projetos que possam surgir ao longo do caminho. E, falando por mim, Formiga, confesso que já estou pensando no próximo álbum.
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